sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Der Himmel über Berlin
A coisa precisa ficar séria.
Estive só por um tempo, mas nunca vivi sozinha.
Quando estava com alguém me sentia feliz;
Mas, ao mesmo tempo, tudo parecia ser coincidência.
Essas pessoas eram meus pais, mas poderiam ter sido outras.
Por que este rapaz de olhos marrons é meu irmão...
...e não aquele de olhos verdes do outro lado da plataforma?
A filha do taxista era minha amiga.
Mas eu poderia igualmente ter colocado meu braço em torno do pescoço de um cavalo...
Estive apaixonada por um homem...
Poderia igualmente tê-lo abandonado e partido com um estranho que cruzou conosco na rua.
Olhe para mim ou não...
Me dê sua mão ou não
Não me dê sua mão, desvie o olhar.
Hoje é noite de Lua Nova,
Noite muito tranquila...
Sem derramamento de sangue na cidade.
Nunca brinquei com ninguém.
Apesar disso, nunca abri meus olhos e disse:
Agora é sério.
Assim fiquei mais velha
Era eu a única que não era séria?
O tempo não tem nada de sério.
Nunca fui solitária, nem quando estive sozinha nem acompanhada.
Mas eu teria gostado de ser solitária.
Solidão significa o seguinte: Finalmente estou inteira.
Agora posso afirmar isso, pois agora me sinto solitária.
As coincidências precisam ter um fim.
Lua Nova das decisões...
Não sei se existe destino, mas existe decisão!
Decida!
Nós agora somos o tempo.
Não apenas a cidade, mas o mundo todo tem parte na nossa decisão.
Nós dois somos mais do que dois,
Encarnamos algo.
Estamos na praça do povo, e a praça está cheia de gente que deseja o mesmo que nós.
Estamos decidindo o jogo de todos!
Estou pronta. Agora é sua vez. O jogo está em suas mãos.
Agora ou Nunca!
Você precisa de mim. Você vai precisar de mim. Não existe maior história que a nossa. A de um homem e uma mulher.
Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa. A história de novos ancestrais.
Veja meus olhos, são o retrato da necessidade.... Do futuro de todos que estão na praça.
Ontem a noite sonhei com um estranho.
Com o meu homem.
Apenas com ele eu poderia ser solitária, me abrir para ele totalmente.
Recebê-lo em mim como um ser inteiro.
Envolvê-lo num labirinto de felicidade partilhada.
Eu sei que ele é você.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Os pássaros
Perdera seus mapas, sua bússola e sobretudo seu guia.
Estava perdido, e o fato de não saber ao menos um atalho o fazia perder também, aos poucos, a motivação de permanecer caminhando. Perdia o sentido o movimento de suas pernas, o ruído de seus passos, a sua respiração.
Seu guia não sabia muito mais que ele o percurso, entretanto a sua desistência o consumia. A sua ausência o consumia.
Há cerca de sete meses andava a esmo e durante esse tempo sobrevivia como um autômato. Por mais que tentasse focar sua atenção em seus próprios passos, num caminho não-circular, não estava ali, seu pensamento sempre o mantinha longe.
Os pássaros o acompanhavam todos os dias e o saudavam com os mais belos cantos, mas por muitas vezes ele os prendia numa gaiola feita de gravetos, ao invés de contemplar a beleza do seu vôo.
Assim caminhava, num amargor que o incapacitava de julgar com bom senso, de enxergar a beleza ao seu redor sem que esta vestisse um tom de urgência, de socorro.
E se pudesse olhar-se de longe, quem sabe compreenderia e acharia o melhor caminho.
Estava perdido, e o fato de não saber ao menos um atalho o fazia perder também, aos poucos, a motivação de permanecer caminhando. Perdia o sentido o movimento de suas pernas, o ruído de seus passos, a sua respiração.
Seu guia não sabia muito mais que ele o percurso, entretanto a sua desistência o consumia. A sua ausência o consumia.
Há cerca de sete meses andava a esmo e durante esse tempo sobrevivia como um autômato. Por mais que tentasse focar sua atenção em seus próprios passos, num caminho não-circular, não estava ali, seu pensamento sempre o mantinha longe.
Os pássaros o acompanhavam todos os dias e o saudavam com os mais belos cantos, mas por muitas vezes ele os prendia numa gaiola feita de gravetos, ao invés de contemplar a beleza do seu vôo.
Assim caminhava, num amargor que o incapacitava de julgar com bom senso, de enxergar a beleza ao seu redor sem que esta vestisse um tom de urgência, de socorro.
E se pudesse olhar-se de longe, quem sabe compreenderia e acharia o melhor caminho.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Era um jogo.
Não se via uma quadra, nem raquetes, mas podia-se facilmente imaginar, tal era a constante e intensa troca de palavras. A bola era a palavra. Arremessada para lá e para cá, ora com estratégia e leveza, ora com violência e impiedade.
O jogo não contava pontos e trazia consigo um paradoxo: Quem o jogasse seria igualmente prejudicado e favorecido.
O prejuízo tão óbvio, acompanhava a dureza das palavras, de quando a bola acertava o peito do adversário. Árdua era a tarefa de fazer os curativos depois, não havia cura para cicatrizes reabertas em sucessivos jogos.
O favor, só percebido a longo prazo, era comumente ignorado enquanto desconhecesse a essência do adversário, enquanto não dosasse a força dos arremessos, enquanto repetisse algum golpe.
Era de fato um jogo, mas os jogadores só poderiam vencer juntos e perder separados.
Não se via uma quadra, nem raquetes, mas podia-se facilmente imaginar, tal era a constante e intensa troca de palavras. A bola era a palavra. Arremessada para lá e para cá, ora com estratégia e leveza, ora com violência e impiedade.
O jogo não contava pontos e trazia consigo um paradoxo: Quem o jogasse seria igualmente prejudicado e favorecido.
O prejuízo tão óbvio, acompanhava a dureza das palavras, de quando a bola acertava o peito do adversário. Árdua era a tarefa de fazer os curativos depois, não havia cura para cicatrizes reabertas em sucessivos jogos.
O favor, só percebido a longo prazo, era comumente ignorado enquanto desconhecesse a essência do adversário, enquanto não dosasse a força dos arremessos, enquanto repetisse algum golpe.
Era de fato um jogo, mas os jogadores só poderiam vencer juntos e perder separados.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Diálogo
- Tudo o que você me disse, essas coisas sobre amor, de ser algo infinitamente maior que qualquer discussãozinha banal sobre a conduta masculina, me soou um discurso burlesco. Você sabe, vindo de um homem, ainda que esteja defendendo as exceções, é bobo. Tudo mudou ao longo do tempo, até o estado sólido do amor. Hoje ele escorre pelas nossas mãos, mesmo que num ímpeto de sentir sua consistência nós tentemos tocá-lo. Eu sei, é abstrata minha analogia. Mas e o que é teu discurso? Longe de suplantar o meu, é dócil e anacrônico.
- E o que eu posso fazer para você acreditar no que digo? Nada. Na verdade nem quero. São pensamentos meus que difundi apenas para me posicionar ante ao seu ceticismo barato, digno de alguém que chorou por dois ou três mal-amados que sequer te olharam verdadeiramente nos olhos, em sua “janela da alma”... E você pode sustentar o argumento que for, pode resistir até onde sua teimosia te permite: Você acredita no amor.
- Eu?? Eu acredito num amor que é idealizado, como as sombras da caverna de Platão que não podem ser tocadas. E as diversas tentativas de se amar é a busca do amor ideal, ou seja: meras procuras vãs. É essa a graça do amor.
- Você reduz o amor à uma personificação de tudo aquilo que te agrada, como se tu mesma fosse as tais sombras intangíveis. É direito seu ser intolerante com qualquer tropeço, mas saiba que dali a uns passos quem pode cair é você.
- Sobre cair eu entendo bem, porém eu me levanto e recomeço a procurar!
- É exatamente por procurar que você se perde na multiplicidade dos caminhos. A tua busca me parece tão ávida, que corrompe a tua percepção do óbvio.
- Mas o que te parece tão óbvio??
- O óbvio é o que eu sinto. A despeito do meu discurso, jamais direi que te amo. Jamais direi que existe algo dentro dos seus olhos que me faz sorrir. O que eu sinto me basta.
É essa a obviedade que você desconhece.
- E o que eu posso fazer para você acreditar no que digo? Nada. Na verdade nem quero. São pensamentos meus que difundi apenas para me posicionar ante ao seu ceticismo barato, digno de alguém que chorou por dois ou três mal-amados que sequer te olharam verdadeiramente nos olhos, em sua “janela da alma”... E você pode sustentar o argumento que for, pode resistir até onde sua teimosia te permite: Você acredita no amor.
- Eu?? Eu acredito num amor que é idealizado, como as sombras da caverna de Platão que não podem ser tocadas. E as diversas tentativas de se amar é a busca do amor ideal, ou seja: meras procuras vãs. É essa a graça do amor.
- Você reduz o amor à uma personificação de tudo aquilo que te agrada, como se tu mesma fosse as tais sombras intangíveis. É direito seu ser intolerante com qualquer tropeço, mas saiba que dali a uns passos quem pode cair é você.
- Sobre cair eu entendo bem, porém eu me levanto e recomeço a procurar!
- É exatamente por procurar que você se perde na multiplicidade dos caminhos. A tua busca me parece tão ávida, que corrompe a tua percepção do óbvio.
- Mas o que te parece tão óbvio??
- O óbvio é o que eu sinto. A despeito do meu discurso, jamais direi que te amo. Jamais direi que existe algo dentro dos seus olhos que me faz sorrir. O que eu sinto me basta.
É essa a obviedade que você desconhece.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Quem controla o passado controla o futuro
Quando li 1984, gostei tanto que quis ver a versão para cinema do livro. Uma grande amiga a gravou para mim e eu, finalmente pude assistir. A versão é um retrato fiel do romance político de Orwell um tanto fora dos limites que um filme normalmente propõe, de se ater meramente a um resumo, mas se atentar a detalhes dos quais foi-me um prazer rememorar. Eu comparava o perfil dos personagens propostos pelo diretor Michael Radford, com os que eu criei em minha imaginação: os cenários, a teletela, a prole, Winston, o Grande Irmão, os minutos de ódio, a polícia do pensamento.O filme conta uma história de amor que tenta sobreviver em meio a um regime autoritário que proíbe que se tenha sentimentos, exceto se eles forem de devoção ao Grande Irmão. Winston se apaixona por Julia, militante da Liga Juvenil Anti-Sexo, que assim como ele condena o partido, e questiona o por quê de tudo que se vê obrigada a submeter-se.
1984 lembra muito Admirável Mundo Novo, ambos possuem essa idéia de controle absoluto por parte do Estado, enquanto as pessoas se mantém invariavelmente sujeitas a qualquer ordem, de maneira que quem se opõe tem seu castigo.
O autor, Eric Blair, nascido em classe média, criou o pseudônimo George Orwell e optou por viver na miséria, lutando contra o fascismo na guerra civil espanhola. Escreveu mais outros romances como A revolução dos bichos e Dias na Birmânia, fazendo uso sempre de metáforas e experiências pessoais. Quando 1984 foi lançado, seus prognósticos foram considerados um simples alarme, quando sua visão do porvir era procedente.
Tanto o livro quanto o filme valem a pena e são fantásticos, digo, dupliplusbom! :)
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Do amor e das representações ♥ ♥ ♥
A idéia que tenho sobre Deus, comumente vista como um ceticismo, é diretamente ligada à idéia que tenho sobre o amor. Acredito que não há personificação na concepção de Deus, nem me arrisco a determinar quem Ele é, o que posso fazer é negar sua limitação, sua maldade, sua injustiça. “Quanto mais sei o que Deus não é, mais conhecimento tenho acerca Dele” 1, e não o contrário, de modo que a humildade em assumir a minha limitada compreensão sobre Deus, me torna mais religiosa e mais próxima Dele.
Não penso que seja possível amar a Deus em pensamento, mas sim realizando o que Deus representa em nós: ações corretas, atitudes grandes, embasadas em tolerância, humildade e paciência. As 3 máximas de Sidarta podem ser aplicadas, o jejuar e o esperar à Deus, e o pensar à si mesmo.
Assim, a capacidade de amar à Deus está diretamente ligada à capacidade de amar a si mesmo, o próximo e conseqüentemente à alguém a quem faremos trocas mútuas de atenção, alegria, compreensão, conhecimento, tristeza... “Suponha o homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, e você só poderá trocar o amor pelo amor, a confiança pela confiança, etc.” 2
O amor é cada vez mais mitificado à medida que o homem distancia-se da sua independência ao ser tomado como mercadoria (ao investir suas forças vitais 8 horas por dia) por um sistema que pré-estabelece o entretenimento do indivíduo e propõe que o consumo seja a chave para a satisfação dele.
É mitificado, pois a sensação de ansiedade decorrente dessas ações, e das facilidades propostas pela modernidade, torna a idéia de solidez, inerente ao amor, como algo repulsivo, uma vez que a impossibilidade de descartar uma escolha vai de encontro com o hábito, por exemplo, de desistir de usar um produto, quando outro lhe parece mais atrativo. “Com a ação por impulso profundamente incutida na conduta cotidiana pelos poderes supremos do mercado de consumo, seguir um desejo é como caminhar constrangido, de modo desastrado e desconfortável, na direção do compromisso amoroso.” 3
A despeito dessa fragilidade atual, eu acredito no amor. Ironia o dizer dessa maneira tomando o amor como uma entidade sobrenatural passível de crença ou descrença. Acredito que é preciso de teoria e prática para amar. A teoria exige objetividade, humildade e capacidade de racionalizar; E a prática, penso que seja primeiro necessário que se tenha capacidade de amar a si, a natureza, ao mundo; e segundo que se realizem as tais ações que representam Deus em nós.
Referências bibliográficas:
1 FROMM, Erich, A arte de amar
2 MARX, Karl, Economia política e filosofia
3 BAUMAN, Zygmunt, O amor líquido
Não penso que seja possível amar a Deus em pensamento, mas sim realizando o que Deus representa em nós: ações corretas, atitudes grandes, embasadas em tolerância, humildade e paciência. As 3 máximas de Sidarta podem ser aplicadas, o jejuar e o esperar à Deus, e o pensar à si mesmo.
Assim, a capacidade de amar à Deus está diretamente ligada à capacidade de amar a si mesmo, o próximo e conseqüentemente à alguém a quem faremos trocas mútuas de atenção, alegria, compreensão, conhecimento, tristeza... “Suponha o homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, e você só poderá trocar o amor pelo amor, a confiança pela confiança, etc.” 2
O amor é cada vez mais mitificado à medida que o homem distancia-se da sua independência ao ser tomado como mercadoria (ao investir suas forças vitais 8 horas por dia) por um sistema que pré-estabelece o entretenimento do indivíduo e propõe que o consumo seja a chave para a satisfação dele.
É mitificado, pois a sensação de ansiedade decorrente dessas ações, e das facilidades propostas pela modernidade, torna a idéia de solidez, inerente ao amor, como algo repulsivo, uma vez que a impossibilidade de descartar uma escolha vai de encontro com o hábito, por exemplo, de desistir de usar um produto, quando outro lhe parece mais atrativo. “Com a ação por impulso profundamente incutida na conduta cotidiana pelos poderes supremos do mercado de consumo, seguir um desejo é como caminhar constrangido, de modo desastrado e desconfortável, na direção do compromisso amoroso.” 3
A despeito dessa fragilidade atual, eu acredito no amor. Ironia o dizer dessa maneira tomando o amor como uma entidade sobrenatural passível de crença ou descrença. Acredito que é preciso de teoria e prática para amar. A teoria exige objetividade, humildade e capacidade de racionalizar; E a prática, penso que seja primeiro necessário que se tenha capacidade de amar a si, a natureza, ao mundo; e segundo que se realizem as tais ações que representam Deus em nós.
Referências bibliográficas:
1 FROMM, Erich, A arte de amar
2 MARX, Karl, Economia política e filosofia
3 BAUMAN, Zygmunt, O amor líquido
domingo, 19 de outubro de 2008
Razbliuto
Ele disse "Pára de se rastejar por mim" e ela riu, ser subjugada por qualquer outra voz que não a própria, interior, era no mínimo perturbador. E rir era como um ato reflexo, o autômato modo que adquiriu para afugentar seus pensamentos auto-piedosos. Naqueles segundos sequer refletiu sobre sua conduta, tecnicamente não estava rastejando-se de fato, mas jazia sobre ele, estática, com a cabeça amparada por uma das mãos e a outra espetando-se naquela barba por fazer.
Não havia mais o que se dizer, ainda não tinham inventado o teletransporte, mas ela continuava falando, dissertando sobre o sentimento que não mais havia, a não ser o desejo de que ele ainda existisse. Era ele o seu razbliuto*, mas por alguns instantes perdera a afeição pelos acasos. Então ele cansou-se da personalidade inicial e de seus olhos escorreram lágrimas. Não costumava a interpretar os dois personagens na sua frente, era sempre o mesmo cara sensível e injustiçado pela imagem indefesa e infantil dela que marcara para sempre suas lembranças. Por um lapso, pela frieza do espaço e tempo ou mesmo pelo álcool que havia consumido pouco antes, ele utilizou-se da sua indelicadeza, característica que ela desconhecia, mesmo que fosse de sua personalidade predominante.
Não obstante, era nesta personalidade suja que ela queria aprofundar-se. Já havia se questionado o porquê, mas a contra-pergunta "por que não?" foi mais relevante. Seus modos breves e calculados, o sutil frescor da sua preservação e a certeza da própria beleza a tornavam ainda mais atraente. Era tão simples escolher qualquer outro para "rastejar-se", mas nenhum o diria dessa maneira. Nenhum deixaria escapar alguém tão inexpugnável.
E ele deixou.
Podia encontrar erros em coisas imutáveis, de sua natureza. Mas ela preferiu julgar que o seu único equívoco foi ter decidido utilizar também a sua segunda personalidade, a que se distinguia da outra, indefesa e infantil, por ser exatamente o seu oposto e que a tomou por completo enquanto descia as escadas num ímpeto de sumir-se dali para sempre.
*Palavra intraduzível em russo, que nomeia o sentimento que se experimenta por alguém a quem se amou no passado, mas não se ama mais.
Não havia mais o que se dizer, ainda não tinham inventado o teletransporte, mas ela continuava falando, dissertando sobre o sentimento que não mais havia, a não ser o desejo de que ele ainda existisse. Era ele o seu razbliuto*, mas por alguns instantes perdera a afeição pelos acasos. Então ele cansou-se da personalidade inicial e de seus olhos escorreram lágrimas. Não costumava a interpretar os dois personagens na sua frente, era sempre o mesmo cara sensível e injustiçado pela imagem indefesa e infantil dela que marcara para sempre suas lembranças. Por um lapso, pela frieza do espaço e tempo ou mesmo pelo álcool que havia consumido pouco antes, ele utilizou-se da sua indelicadeza, característica que ela desconhecia, mesmo que fosse de sua personalidade predominante.
Não obstante, era nesta personalidade suja que ela queria aprofundar-se. Já havia se questionado o porquê, mas a contra-pergunta "por que não?" foi mais relevante. Seus modos breves e calculados, o sutil frescor da sua preservação e a certeza da própria beleza a tornavam ainda mais atraente. Era tão simples escolher qualquer outro para "rastejar-se", mas nenhum o diria dessa maneira. Nenhum deixaria escapar alguém tão inexpugnável.
E ele deixou.
Podia encontrar erros em coisas imutáveis, de sua natureza. Mas ela preferiu julgar que o seu único equívoco foi ter decidido utilizar também a sua segunda personalidade, a que se distinguia da outra, indefesa e infantil, por ser exatamente o seu oposto e que a tomou por completo enquanto descia as escadas num ímpeto de sumir-se dali para sempre.
*Palavra intraduzível em russo, que nomeia o sentimento que se experimenta por alguém a quem se amou no passado, mas não se ama mais.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
"Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas. Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores, nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. [...] tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo cabe aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência."
Sidarta - Hermann Hesse
Sidarta - Hermann Hesse
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Fahrenheit 451
A temperatura em que o papel do livro queima na escala Fahrenheit é 451º. Foi baseado nisso que Ray Bradbury deu nome ao seu inesquecível livro que questiona: Como seria um mundo sem livros? E conta a história de Montag, um bombeiro que nestes tempos não apaga incêndios, mas os provoca queimando todos os livros que ainda existirem como forma de combater o mal-estar do homem quando em contato com a literatura, filosofia, cultura.É nesta atmosfera superficial e limitada que François Truffaut compõe o cenário de seu filme de mesmo título. Oskar Werner, que também atuou no fabuloso Jules e Jim, interpreta Montag, que após conhecer uma moça comunicativa e diferente de todas as outras pessoas reclusas e inóspitas, se flagra tentando responder a pergunta que ela lhe fez ao despedir-se: "Você é feliz?"
E as pessoas felizes eram as que liam os livros proibidos despoticamente por uma lei imperativa e categórica, de que os livros trazem a solidão aos homens, portanto é proibido lê-los. Essa regra gerava nas pessoas, sobretudo nas vazias donas-de-casa, uma desmedida repugnância aos livros. Ouvir um poema para elas, era como ouvir obscenidades.
A história termina de forma comovente, créditos à Bradbury, entretanto, enquadrar no cinema como Truffaut o fez, só torna a obra agradavelmente completa. Podiam tornar todos os livros em cinzas, mas haveriam de destruir também as pessoas. "Quem é você" Pergunta-se e com cada página na memória é respondido: "Eu sou Dom Quixote".
Uma vez um amigo me perguntou qual era o livro da minha vida, e eu não soube responder, ainda queria ter lido muito mais para responder àquela pergunta. No entanto, há um livro que me marcou muito, talvez por eu ter me identificado tanto. O escritor é o Hermann Hesse
Eu sou "O lobo da estepe".
sábado, 27 de setembro de 2008
Le parfum de mes nuits
Gritou desolado qualquer coisa incompreensível e as veias saltaram-lhe de seu pescoço enquanto cheirava sôfrego cada parte daquele travesseiro encardido que retia nas mãos.
Fora a terceira noite que não conseguia dormir, porque a imagem dela não saía de seu pensamento por um minuto sequer. Era como se ela estivesse emoldurada na parede de cada cômodo do seu cérebro. Como se seus raciocínios fossem pontuados e ela era as vírgulas, os pontos, as exclamações. A ausência dela tomou a forma de uma obsessão inelutável, da qual ainda assim, ele estava certo de que lhe aprazia. Não tinha escolha. Óbvio que não poderia fazê-la voltar, portanto, o que restava para ele era sua lembrança.
Quando não encontrou mais seu cheiro no travesseiro, sentiu todo seu corpo desfalecer. Era como se sua energia dependesse de uma mera prova da existência dela em sua vida. Não bastava sua insônia, suas fantasias desvairadas, sua febre. Era-lhe demais perder o perfume que sua alma ainda embebia.
Desceu as escadas descalço e saiu de casa com a pulsação em sobressalto. Pensou que haveria de fazer algo, de pronto. Era incapaz de esperar uma hora própria para vê-la. Estava amanhecendo e a moça que caminhava na sua frente, tinha os cabelos dela.
A outra que segurava uma criança no colo tinha os seus olhos quando acordava, e ele lembrou-se das vezes que soprava sua barriga, provocando ruídos que a faziam acordar. "Lembranças doces como o seu cheiro", refletiu e fez um esforço mental para recordar seu perfume. Não conseguiu e o fracasso causou-lhe perturbação. Tinha de encontrá-la. Precisava fazer algo.
A agitação o fez caminhar cada vez mais rápido e em mais alguns minutos estava em frente à casa dela. Tocou o interfone 4 vezes e na quinta ela atendeu. Ao ouvir sua voz, conseguiu ver seu corpo subindo aqueles quatro degraus e virando à direita para torcer a maçaneta e encontrar a porta aberta, facilitando a execução de seus planos íntimos. Mas ela disse "espere um minuto" e destravou o portão, ao que ele realmente subiu os degraus e bateu na porta.
Quando ela descobriu-o no olho mágico fez menção de virar a chave e recebê-lo, comiserou-se do estado em que ele se encontrava, mas antes disso uma voz masculina vinda do quarto perguntou-lhe quem era. Então ela olhou mais uma vez no olho mágico para ver como reagiria àquela voz, até que estremeceu ao vê-lo fechar os olhos e bater com as mãos fechadas na própria cabeça, como um louco. Ele dizia baixinho: "Abra a porta, quero sentir seu cheiro."
Assim, ela, num misto de medo e dó, abriu a porta devagar ao passo que ele a abraçou ávido, cheirando seu pescoço, seus braços, seu rosto. Ela sentiu lágrimas saltarem dos olhos enquanto ele repetia "eu quero seu cheiro, eu quero seu cheiro".
Então o dono da voz vinda do quarto apareceu e ela deixou-se cair no sofá chorando, depois que ele a largou e correu até o banheiro deixando ecoar na sala o ruído de armários abrindo e vidros estilhaçando no chão. Passou pela última vez pela sala e saiu sem se despedir com um frasco de perfume nas mãos.
Era o perfume dela. Que ele borrifaria em seu travesseiro todas as noites.
Fora a terceira noite que não conseguia dormir, porque a imagem dela não saía de seu pensamento por um minuto sequer. Era como se ela estivesse emoldurada na parede de cada cômodo do seu cérebro. Como se seus raciocínios fossem pontuados e ela era as vírgulas, os pontos, as exclamações. A ausência dela tomou a forma de uma obsessão inelutável, da qual ainda assim, ele estava certo de que lhe aprazia. Não tinha escolha. Óbvio que não poderia fazê-la voltar, portanto, o que restava para ele era sua lembrança.
Quando não encontrou mais seu cheiro no travesseiro, sentiu todo seu corpo desfalecer. Era como se sua energia dependesse de uma mera prova da existência dela em sua vida. Não bastava sua insônia, suas fantasias desvairadas, sua febre. Era-lhe demais perder o perfume que sua alma ainda embebia.
Desceu as escadas descalço e saiu de casa com a pulsação em sobressalto. Pensou que haveria de fazer algo, de pronto. Era incapaz de esperar uma hora própria para vê-la. Estava amanhecendo e a moça que caminhava na sua frente, tinha os cabelos dela.
A outra que segurava uma criança no colo tinha os seus olhos quando acordava, e ele lembrou-se das vezes que soprava sua barriga, provocando ruídos que a faziam acordar. "Lembranças doces como o seu cheiro", refletiu e fez um esforço mental para recordar seu perfume. Não conseguiu e o fracasso causou-lhe perturbação. Tinha de encontrá-la. Precisava fazer algo.
A agitação o fez caminhar cada vez mais rápido e em mais alguns minutos estava em frente à casa dela. Tocou o interfone 4 vezes e na quinta ela atendeu. Ao ouvir sua voz, conseguiu ver seu corpo subindo aqueles quatro degraus e virando à direita para torcer a maçaneta e encontrar a porta aberta, facilitando a execução de seus planos íntimos. Mas ela disse "espere um minuto" e destravou o portão, ao que ele realmente subiu os degraus e bateu na porta.
Quando ela descobriu-o no olho mágico fez menção de virar a chave e recebê-lo, comiserou-se do estado em que ele se encontrava, mas antes disso uma voz masculina vinda do quarto perguntou-lhe quem era. Então ela olhou mais uma vez no olho mágico para ver como reagiria àquela voz, até que estremeceu ao vê-lo fechar os olhos e bater com as mãos fechadas na própria cabeça, como um louco. Ele dizia baixinho: "Abra a porta, quero sentir seu cheiro."
Assim, ela, num misto de medo e dó, abriu a porta devagar ao passo que ele a abraçou ávido, cheirando seu pescoço, seus braços, seu rosto. Ela sentiu lágrimas saltarem dos olhos enquanto ele repetia "eu quero seu cheiro, eu quero seu cheiro".
Então o dono da voz vinda do quarto apareceu e ela deixou-se cair no sofá chorando, depois que ele a largou e correu até o banheiro deixando ecoar na sala o ruído de armários abrindo e vidros estilhaçando no chão. Passou pela última vez pela sala e saiu sem se despedir com um frasco de perfume nas mãos.
Era o perfume dela. Que ele borrifaria em seu travesseiro todas as noites.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
O veredicto - Interpretação

Essa pequena novela de Franz Kafka, escrita em uma só madrugada, reflete bem a essência das obras que o autor veio a escrever em seguida: a ênfase na relação pai-filho categoricamente mal resolvida e nas punições.
Georg Bendemann é um jovem bem sucedido e recém noivado, que se correspondia por cartas com um amigo que há muito havia ido morar na Rússia e se encontrava atualmente em precárias condições financeiras e sem vida social. Ele visitava seu país de origem esporadicamente, e por conseguinte Georg, no entanto já faziam 3 anos que não se viam.
Georg passara a viver na casa do pai assim que sua mãe falecera e para que o amigo tomasse ciência da morte, ele lhe enviou uma carta comentando o ocorrido, ao passo que obteve uma resposta fria e insensível, a qual Georg compreendeu como um costume característico da Rússia.
O sucesso no comércio do pai, atualmente administrado por Georg vinha crescendo inexplicavelmente e seu amigo não fazia idéia desse avanço, nem de que ele iria casar. Uma vez, a noiva questionou o fato dele não ter convidado o amigo ao casamento, argüindo que tinha o direito de conhecer todos os seus amigos. Ao que Georg desconversou dizendo que ele não ficaria sabendo, e mesmo que contasse, ele viria e voltaria sozinho em seguida, por inveja ou ciúmes. Então a noiva respondeu: "Se você tem amigos assim, Georg, não devia ter ficado noivo."
Assim, ele resolve escrever enfim uma carta, noticiando seu noivado. A guarda no bolso e vai até o quarto do pai a fim de avisá-lo que iria remeter a tal carta no correio. O pai, um tanto dependente de cuidados pessoais, contesta a existência deste amigo de São Petersburgo. Mas Georg reafirma sugerindo até um possível esquecimento do pai.
Então a conversa tranquila se torna uma discussão quando o pai brada que o seu amigo seria um filho para ele, se Georg não tivesse o traído e critica seu noivado.
O debate se segue com o pai afirmando que o seu amigo não precisava de carta nenhuma pois sabia de tudo antes da correspondência chegar e finaliza com a sentença: "Eu o condeno à morte por afogamento".
E então ele faz jus à condenação do pai, correndo em direção à ponte e deixando-se cair ao dizer em voz baixa: "Queridos pais, eu sempre os amei".
O sucinto resumo que tentei esboçar foi para que a interpretação a seguir se situe melhor:
Penso que Georg não possuía amigo nenhum, e sim um distúrbio mental caracterizado como Síndrome da Dupla Personalidade. Pensando por esse lado, a afirmação da noiva de Georg ("Se você tem amigos assim, Georg, não devia ter ficado noivo.") passa a ser concebível, e não entendida por uma mera superficialidade.
Uma personalidade de Georg era o seu amigo da Rússia, obviamente, que ele não queria sê-lo de maneira nenhuma, tanto que criou a possibilidade da distância, para que finalmente, assim que desposasse, houvesse o fim do vínculo.
Já o pai, confessou o sentimento que tinha para com esse suposto amigo que ele mesmo questionou a existência trazendo à tona a verdade frente ao filho e em seguida declarando o desejo de que Georg fosse como ele: um solteiro recluso, sem amigos, que cuidasse do pai, e trabalhasse em seu comércio de forma subserviente e resignada.
A resposta seca do seu amigo à carta informando o falecimento da sua mãe pode ser explicada como um posicionamento negativo à idéia de que Georg passaria a ter mais responsabilidades, em detrimento da sua independência. Ele era sim, a outra personalidade subjugada, no entanto não deixava de ser Georg, com os mesmos medos, mas com diferente postura.
O fim do livro é marcado pela sua punição. Sem nenhum tribunal para julgá-lo, como em O processo. Mas uma punição subjetiva e individual.
A metáfora está presente, numa narrativa excelente, bem como todo bom livro de Kafka.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Trópico de câncer
"Ali mesmo", ele disse. Podia ser ali. Tinha algo em mente que precisava dizer apenas para seduzí-la e tê-la nas mãos. A onda batia forte, ela com sua timidez habitual, mas que ele desconhecia, falou-lhe "eu não sei se devo olhar as estrelas com você".
Então ele beijou seu rosto, aquelas maçãs-do-rosto vermelhas inabilmente cobertas por alguns longos fios de cabelos amontoados, e completou: "mas eu quero mostrar o trópico de câncer, eu juro que conseguiremos ver".
Faltavam poucas palavras nela. Poucas, mas as certas, e ela não conseguia dizer as palavras certas que lhe vinham na cabeça. Disse: "Você quer falar de Henry Miller?"
"Não! As estrelas mesmo, o céu." Respondeu, e sentou na areia largando suavemente a sua mão.
Uns segundos transcorreram em silêncio e ela sentiu vontade de gritar poesia. Podia sim, ter bebido aquele champagne que serviram na festa, e ela estaria mais à vontade.
Entendia da vida, dos eufemismos e das intenções dele. Certamente a julgava uma criança, aqueles braços finos, aquela postura oblíqua que parecia suplicar perdão pela existência, e o olhar tímido, impotente de manter-se em outros olhos. Mas ela era bonita. Sabia bem disso, e tinha certeza de que era essa a razão para ele ter conduzido sua mão até ali.
Ela apenas sorria e corria até a beira do mar, sem dizer palavra. Ela sabia ser uma amante perfeita, dessas de filme, sedutora e promíscua. Até já fora um dia, quando viajou para São Petersburgo e conheceu alguém no bar. A aliança no dedo dele a trouxe uma confiança desmedida e ela se viu como uma amante. Sabia que podia persuadir e viu graça naquilo, tomou como uma meta travessa. E assim o fez. Quanto mais ele negava, mais ela se sentia confiante, e falava sem parar. Tinha a certeza nos lábios, e a inquisição no olhar.
Mas sabe lá porque quando voltou, seus ombros encurvaram-se e não conseguia mais inclinar a cabeça diante de tanta gente. Não havia nada demais nele, que pudesse explicar seu comedimento. Ele disse: "vem aqui, minha flor".
Às suas costas ela sorriu e ensaiou algum gesto sensual a fazer, mas não sabia mais. Desaprendeu. Rodou nos calcanhares e foi até ele. "E o céu? Está nublado hoje..."
Então ele concluiu: "tudo bem, me dá um abraço".
Aquele seu abraço tinha pressa, ele a queria mas imaginava-a receosa demais. Pensou, "está ficando tarde". Assim ela o beijou pensando em desistir de ser algum personagem dos livros que costumava a ler. Era somente uma noite mesmo, que diferença fazia? Uma fuga rápida da festa e a embriaguez que seus pensamentos sujos causavam sem qualquer trago de álcool. Concluiu: "está bem".
Ele a beijava sôfrego, enquanto o vento varria a areia em cima daquela quase unicidade efêmera e vazia. Não havia impedimento nenhum, e ele se entusiasmava demais por isso. Então, ela lembrou de São Petersburgo e experimentando o desejo com o qual aquelas mãos percorriam seu corpo, sentiu-se confiante e balbuciou em seu ouvido: "Estou no cio".
Ele tossiu.
Tossiu muito, até levantar-se desajeitado, e caminhar em direção da festa. Então ela se deixou cair por completo na areia e ficou a procurar o trópico de câncer naquele céu sem estrelas.
Então ele beijou seu rosto, aquelas maçãs-do-rosto vermelhas inabilmente cobertas por alguns longos fios de cabelos amontoados, e completou: "mas eu quero mostrar o trópico de câncer, eu juro que conseguiremos ver".
Faltavam poucas palavras nela. Poucas, mas as certas, e ela não conseguia dizer as palavras certas que lhe vinham na cabeça. Disse: "Você quer falar de Henry Miller?"
"Não! As estrelas mesmo, o céu." Respondeu, e sentou na areia largando suavemente a sua mão.
Uns segundos transcorreram em silêncio e ela sentiu vontade de gritar poesia. Podia sim, ter bebido aquele champagne que serviram na festa, e ela estaria mais à vontade.
Entendia da vida, dos eufemismos e das intenções dele. Certamente a julgava uma criança, aqueles braços finos, aquela postura oblíqua que parecia suplicar perdão pela existência, e o olhar tímido, impotente de manter-se em outros olhos. Mas ela era bonita. Sabia bem disso, e tinha certeza de que era essa a razão para ele ter conduzido sua mão até ali.
Ela apenas sorria e corria até a beira do mar, sem dizer palavra. Ela sabia ser uma amante perfeita, dessas de filme, sedutora e promíscua. Até já fora um dia, quando viajou para São Petersburgo e conheceu alguém no bar. A aliança no dedo dele a trouxe uma confiança desmedida e ela se viu como uma amante. Sabia que podia persuadir e viu graça naquilo, tomou como uma meta travessa. E assim o fez. Quanto mais ele negava, mais ela se sentia confiante, e falava sem parar. Tinha a certeza nos lábios, e a inquisição no olhar.
Mas sabe lá porque quando voltou, seus ombros encurvaram-se e não conseguia mais inclinar a cabeça diante de tanta gente. Não havia nada demais nele, que pudesse explicar seu comedimento. Ele disse: "vem aqui, minha flor".
Às suas costas ela sorriu e ensaiou algum gesto sensual a fazer, mas não sabia mais. Desaprendeu. Rodou nos calcanhares e foi até ele. "E o céu? Está nublado hoje..."
Então ele concluiu: "tudo bem, me dá um abraço".
Aquele seu abraço tinha pressa, ele a queria mas imaginava-a receosa demais. Pensou, "está ficando tarde". Assim ela o beijou pensando em desistir de ser algum personagem dos livros que costumava a ler. Era somente uma noite mesmo, que diferença fazia? Uma fuga rápida da festa e a embriaguez que seus pensamentos sujos causavam sem qualquer trago de álcool. Concluiu: "está bem".
Ele a beijava sôfrego, enquanto o vento varria a areia em cima daquela quase unicidade efêmera e vazia. Não havia impedimento nenhum, e ele se entusiasmava demais por isso. Então, ela lembrou de São Petersburgo e experimentando o desejo com o qual aquelas mãos percorriam seu corpo, sentiu-se confiante e balbuciou em seu ouvido: "Estou no cio".
Ele tossiu.
Tossiu muito, até levantar-se desajeitado, e caminhar em direção da festa. Então ela se deixou cair por completo na areia e ficou a procurar o trópico de câncer naquele céu sem estrelas.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Conto tautogramático
Eis, então, Elias esperto.
Estava em êxtase enquanto Ester (ex - enamorada) estirava-se em efusiva ebulição.
Elias esperava Elisa (esposa) entrar.
E Ester espirituosa esperava estragar enlace.
Expectativas.
Elias era esperto, entretanto escolher esconderijo exigia esforço.
E ele estava exausto.
Empanar Ester era estupidez?
Elisa entenderia?
Elias empalidece enquanto Elisa entra exasperada.
Entende estapafúrdio e emudece.
Ele estraga ensejo, explicando eloqüente: "É exatamente esta estória explícita!”
Elisa entristece.
Ester efervescente efetua-se.
Elias envergonha-se.
Entrementes, esta exposição escrita é então escassa:
Ester encara-a endiabrada enquanto Elisa exprime-se: "Estou emprenhada...”
Elias estaca.
Ester entristece.
E Elisa emociona-se.
Estava em êxtase enquanto Ester (ex - enamorada) estirava-se em efusiva ebulição.
Elias esperava Elisa (esposa) entrar.
E Ester espirituosa esperava estragar enlace.
Expectativas.
Elias era esperto, entretanto escolher esconderijo exigia esforço.
E ele estava exausto.
Empanar Ester era estupidez?
Elisa entenderia?
Elias empalidece enquanto Elisa entra exasperada.
Entende estapafúrdio e emudece.
Ele estraga ensejo, explicando eloqüente: "É exatamente esta estória explícita!”
Elisa entristece.
Ester efervescente efetua-se.
Elias envergonha-se.
Entrementes, esta exposição escrita é então escassa:
Ester encara-a endiabrada enquanto Elisa exprime-se: "Estou emprenhada...”
Elias estaca.
Ester entristece.
E Elisa emociona-se.
A metamorfose

Um caixeiro viajante, responsável pela estável condição social de sua família, acorda metamorfoseado em um inseto assombroso. Sua atual condição o impede de sair de seu quarto, quanto mais dar continuidade à sua rotina de trabalho, embora o próprio gerente do mesmo tenha ido até sua casa cobrar uma razão para sua falta.
Inevitavelmente, após hesitação, Gregor Samsa abre sua porta e expõe sua nova aparência à todos, produzindo uma repugnância geral. Assim, Gregor tenta se habituar à nova vida, com a resistência da família, e contando apenas com a atenção à princípio da irmã, que o alimenta com restos de comida.
O declínio econômico da casa inicia-se a medida que é concluído o estado aparentemente imutável de Gregor. A busca por alternativas sustentáveis amplia-se na mesma proporção que o asco e a rejeição ao ser solitário.
Até que a tensão ultrapassa seu limite, e o livro tem o seu desfecho.
A minúcia do volume é o fator sobressalente. Se pode desenhar com detalhes um inseto repugnante, embora toda metamorfose possa ser compreendida apenas como uma figura a exprimir a interioridade de Gregor a partir das suas inconformações: A mesmice de seu trabalho burocrático, a tristeza, a solidão e o mal-estar precedentes à mutação.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Glen Hansard with The Swell Season
Fazia tempos que eu não ouvia um disco tão bom que me desse vontade de deixar no repeat por horas. É porque esse cara simplesmente parece abrir o coração quando canta.Vocalista do The Frames e protagonista do filme Once, junto com Markéta Irglová, também vocalista deste álbum, Glen Hansard parece sentir cada verso de suas canções. Com apenas voz e violão, suas músicas tocam com uma profundidade inexplicável, é possível perceber a paixão com a qual cada uma de suas canções foram escritas. Identificar-se com as letras é natural, o tema que Hansard aborda com mais frequência, são os relacionamentos, e ele o faz com simplicidade e beleza.
Difícil dizer qual música me toca mais. Mas essa é bonita demais.
terça-feira, 22 de julho de 2008
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